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Traduzindo notícias – As possibilidades da tradução em meio jornalístico
Drª. Meta Elisabeth Zipser (*) Professora do curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (*) metazipser@yahoo.com.br
Resumo A quantidade de informação que circula hoje é cada vez mais representativa, fato que coloca o jornalismo como organizador de perfis culturais na sociedade, visto que as notícias passam por um ‘filtro’, como forma de adequar-se ao leitor final de cada contexto para o qual são relatadas. Nesse sentido, o tratamento dispensado à notícia, especialmente em ambiente internacional, leva necessariamente a deslocamentos de enfoque, configurando o jornalismo como a tradução do fato noticioso, ou seja, a sua representação cultural (ZIPSER, 2002). Ancorado nas teorias de Christiane Nord (1991 - tradução) e Frank Esser (1998 - jornalismo), este artigo tem por objetivo demonstrar a ocorrência de prováveis deslocamentos de enfoque em textos comparáveis das revistas Veja, TIME e Der Spiegel (representativas do segmento do jornalismo de revista no Brasil, Estados Unidos e Alemanha, respectivamente) como forma de consolidar o caráter interdisciplinar dos estudos tradutórios. Palavras-chave: tradução, jornalismo, funcionalismo, cultura.
Abstract The amount of information that surrounds us is very representative. Such fact places journalism as a set of social profiles as news reports (facts) go through a ‘filter’ in order to be adjusted to the final-reader in each context to which they are reported. In this sense, and especially in what international contexts are concerned, the way news is reported leads us to shifts in focus. Thus, journalism is taken as the translation of news, in other words, its cultural representation (ZIPSER, 2002). Based on the theories of Christiane Nord (1991- translation) and Frank Esser (1998 –journalism), this article intends to demonstrate the occurrence of these shifts in focus over comparable news-reports from TIME, Der Spiegel and Veja magazines, samples of the magazine journalism segment in Brazil, North America and Germany, respectively. The intent is, therefore, to integrate and strengthen the interdisciplinary facets of translation studies. Key-words: translation, journalism, functionalism, culture. Nas três últimas décadas, os estudos da tradução têm se firmado como uma área nova e desafiadora para os pesquisadores da linguagem e da comunicação. Tal fato tem favorecido não só a evolução de teorias, conceitos e métodos, como também a formação de parcerias com áreas afins, possibilitando a criação de interfaces de investigação. A mais recente dessas parcerias encontra-se no entrelaçamento da tradução e do jornalismo, reforçando e ampliando os contornos interdisciplinares dos estudos tradutórios. E é justamente na confluência de aspectos entre estas duas áreas que localizamos este artigo – a interface tradução-jornalismo. Pensar essa interface, a princípio, é compreender a tradução de notícias como uma atividade que vem de encontro a vertentes mais clássicas dos estudos tradutórios: a tradução literal, princípios de equivalência e de fidelidade ao texto-fonte (TF) por estarmos trabalhando com notícias que, em um âmbito maior, buscam representar a “verdade dos fatos”. Este é, aliás, o posicionamento da mídia perante a sociedade: informar de forma “isenta” a verdade. Esta simples caracterização da função da imprensa, por si só, já causa uma série de problemas e discussões filosóficas na tentativa – por vezes bastante difícil - de responder: o que é a verdade? Logo, o texto jornalístico precisa informar, precisa ser verossímil. O jornalista deve escrever de modo que o texto adquira sentido, seja claro, seja simples, objetivo, sem desprezar detalhes importantes, como convém ao layout editorial dos jornais e revistas. Sob esta ótica, a tradução jornalística aproxima-se de conceitos e concepções de uma tradução mais literal que parte, necessariamente, de um texto-fonte (TF) para chegar a um texto-traduzido (TT). E, em virtude destes princípios que regem a prática, as grandes empresas jornalísticas optam por abrir mão de um profissional tradutor por um jornalista que tenha o domínio de uma determinada língua estrangeira. Isso basta para traduzir. São raros os casos de jornalistas especialistas em tradução, embora existam profissionais tradutores que, eventualmente, se especializem na área do jornalismo para se adaptarem às exigências desta tipologia de escrita. Tendo em vista esse panorama formalizado ao longo dos anos, discutimos neste artigo uma nova forma de se pensar a tradução jornalística. Circunscrevendo essa interface, abordamos o conceito de interculturalidade e apresentamos um novo conceito de tradução como representação cultural (ZIPSER, 2002), evidenciando novos contornos para os estudos tradutórios e o fazer jornalístico. De forma a sustentar nossos argumentos, voltados sempre ao texto, à produção escrita (seja sob aspectos tradutórios ou jornalísticos), fazemos uso de dois modelos distintos e comparáveis: o da teórica funcionalista alemã Christiane Nord (1991) para a tradução e o do jornalista, também alemão, Frank Esser (1998). Estes modelos e conceitos, cujos pontos de convergência dão visibilidade ao nosso estudo, são explicitados a seguir.
1. Em Busca de um Conceito de Cultura A relação entre cultura e a produção tradutória e jornalística encontra na linguagem escrita a sua mais significativa forma de expressão. Basta lembrar que, enquanto característica evolutiva, a linguagem foi o fator decisivo para nos diferenciar das outras espécies, para desenvolvermos a capacidade de criar, organizar e nomear símbolos e significados. Desse modo, cultura e linguagem são entendidos aqui como elementos unificados ou, conforme Azenha (1999: 30) como elementos de uma “relação embrionária”, a qual nos auxilia a definir a relação existente entre tradução e jornalismo. Na medida em que consideramos a linguagem como interação e como um modo de produção social, podemos dizer que o ato comunicativo ocorre sempre vinculado a uma intencionalidade. Realizada entre sociedades distintas, a linguagem passa a representar a cultura no âmbito do que Nord[1] chama de comunicação intercultural, ou seja, a troca de conhecimento, de símbolos e significados em contextos sociais diferenciados: Entendo por “cultura” uma comunidade ou grupo que se diferencia de outras comunidades ou grupos por formas comuns de comportamento e ação. Os espaços culturais, portanto, não coincidem necessariamente com unidades geográficas, lingüísticas ou mesmo políticas. (Nord, in: ZIPSER, 2002: 38). Ao considerarmos as situações comunicativas como ambientes nos quais as pessoas interagem e se comunicam, podemos dizer que o ato comunicativo alcança dimensões históricas e culturais que condicionam não só o comportamento dos agentes envolvidos (Emissor e Receptor), como também o conhecimento trocado e as expectativas geradas por essa troca. Dessa forma, uma vez parte da mesma cultura, Emissor e Receptor se bastam para abrir e manter a comunicação, mas quando pertencem a comunidades culturais distintas, esta pode exigir um intermediário que estabeleça e mantenha essa (inter)ação ao longo do tempo e espaço. Essa é a função do tradutor e do jornalista e que determina o ponto em que o conceito de interculturalidade, derivado dessa noção maior de cultura, se pauta. Já o conceito de interculturalidade, por sua vez, trata do fenômeno de interação entre culturas diversas, de descentralização e apreciação de diferenças, de modo que se possa caracterizar a singularidade de cada indivíduo, juntamente com o seu contexto cultural (POLCHLOPEK, 2005b). Isso significa compreender o “diferente” que caracteriza a singularidade da ação e da comunicação de cada sujeito em cada comunidade cultural. Este fenômeno se faz presente na tradução jornalística (TJ), visto que instâncias condicionantes externas e internas, determinadas pelas culturas fonte e de chegada, interferem tanto na prática tradutória quanto na jornalística. Desse ponto de vista, jornalismo e tradução são fenômenos lingüísticos reveladores de identidades culturais distintas cuja conscientização nos remete, enquanto leitores e/ou tradutores, a uma constante reflexão sobre a nossa própria cultura. Nesse sentido, podemos dizer que o texto jornalístico se projeta como um articulador cultural no processo de apropriação de conceitos e valores sociais e culturais. Colocados esses conceitos, podemos tecer considerações acerca dos modelos teóricos que nos servem de base para discutir e propor o conceito de tradução em meio jornalístico. 2. O Modelo de Christiane NordNord compreende o ato tradutório como uma comunicação intercultural, dentro de um processo que envolve três figuras principais: o Emissor, o Tradutor (atuando como mediador entre culturas) e o Receptor (o leitor final). Suas reflexões têm base funcionalista para a tradução, a saber: i) todo texto (traduzido ou não) é inserido em uma situação comunicativa; ii) toda produção textual, com algumas exceções, é essencialmente prospectiva, ou seja, voltada a um leitor final/receptor que, por sua vez, traz consigo experiências e expectativas de outros textos e, iii) todos têm uma função (skopos) que, além de ser realizada somente quando da sua recepção pelo destinatário/receptor é condição determinante da produção textual. Os textos jornalísticos, nesse sentido, satisfazem ainda outra condição dessa proposta: são textos autênticos, em contexto de situação real – (NORD, 1991). O fato de que a tradução é um ato-comunicativo-em-situação, além de estar voltada a um leitor em prospecção, em diferentes contextos culturais, faz deste processo um ato culturalmente marcado, ou seja, os textos jornalísticos trazem consigo marcas (referências) da cultura de chegada para o leitor, dependendo do contexto para o qual o fato noticioso é relatado. A figura do Receptor define assim o que se chama de skopos (propósito) da tradução e também as estratégias, escolhas e decisões do tradutor ao longo do processo. Isso porque a tradução, de acordo com Nord, não ocorre somente no nível do código, mas, primordialmente, no nível da cultura na qual o Receptor está inserido[2]. Nesse sentido, a prioridade é fazer com que os textos funcionem culturalmente para o leitor, ou seja, fazer com que adquiram sentido através da ponte estabelecida pelo receptor entre fatos previamente conhecidos e os novos, adquiridos através da leitura; ponte essa construída através do que Zipser (2002) denomina ‘marcas culturais[3]’. Sobre isso comenta Nord[4]: As seguintes considerações se baseiam em um conceito funcional da comunicação. Se é verdade que a tradução é uma forma de comunicação intercultural, a tradução funcional busca produzir textos que não só “funcionem” na cultura-alvo, como também funcionem da maneira pretendida pelo cliente que tenha encomendado a tradução. (NORD, 2004; grifos da autora). É proposta do modelo de Nord que o processo tradutório e o texto traduzido, como resultado final, sejam passíveis de uma análise textual sistematizada, mais especificamente, para o treinamento de tradutores. Na prática, ainda que muitos desses fatores pareçam óbvios, a sistemática promove uma reflexão acerca da condução do processo, permitindo ao tradutor se conscientizar do processo e avaliar a qualidade do seu trabalho independente do ponto em que esteja. As variáveis sistematizadas por Nord não só conferem autonomia e decisão ao tradutor, como também revelam a complexidade do ato tradutório. Convém ainda ressaltar que esta hierarquia de fatores existe por razões meramente didáticas, visto que Nord sistematizou um modelo que pudesse ser utilizado para treinamento de tradutores e análise textual em sala de aula. O modelo, naturalmente, “pressupõe ajustes que devem ser feitos ao logo do processo inicial de determinação da estratégia de tradução”. (ZIPSER, 2002).
3. O Modelo de Frank Esser O outro vértice da tradução jornalística se concretiza com o trabalho do jornalista alemão Frank Esser (1998)[5]. O autor compreende o jornalismo como um sistema parcial atuante na sociedade, o que equivale a dizer que o jornalismo influencia a sociedade a partir da prática adotada nas redações, ao mesmo tempo em que é influenciado por este ambiente no qual está inserido, o qual também representa (ESSER, 1998: 478). Tal fato aponta para a existência de fatores de influência que afetam a produção textual jornalística, atuando não somente no modo como o público-leitor recebe (lê) os textos, como também na abordagem conferida à notícia. O autor (ESSER, 1998:2 1) afirma que “o jornalismo[6] de cada país é marcado pelas condições emoldurais sociais gerais, por fundamentos históricos e jurídicos, limitações econômicas, bem como por padrões éticos e profissionais de seus agentes”. Tal reflexão remete ao conceito de interculturalidade que confere ao jornalismo de cada país uma identidade nacional e cultural próprias presentes no modo de a imprensa noticiar, informar e formar a opinião do leitor. Esser sistematiza esses condicionantes no que chama de Modelo Pluriestratificado Integrado ou “Metáfora da cebola” (Fig.1). Nesta, aspectos sociais, políticos, normativos e subjetivos emolduram e interagem de forma dinâmica dentro da prática jornalística específica a cada contexto cultural, permeadas também pela ética. Tal perspectiva questiona a visão consensual do compromisso com a neutralidade no meio jornalístico que considera a transcodificação isenta, desconsidera o dinamismo da linguagem e os fatores que influenciam o processo de formação de sentido dos textos.
Do ponto de vista teórico, Frank Esser aproxima-se dos estudos da tradução por apresentar, a exemplo de Nord, uma sistematização que nos permite explorar a forma de atuação do jornalismo em ambiente internacional. Ambos ressaltam o princípio da interculturalidade em que os textos são expostos, vinculando a produção de sentido também à noção de cultura. Segundo o autor[7] (1998: 19), quando em contexto estrangeiro, o pesquisador tende a partir dos seus próprios valores e referências (de cultura, de experiência de vida) para analisar fatos e circunstâncias. Resgatando o conceito de interculturalidade é possível abrir espaço para a compreensão do Outro através da sua ótica e não através de nossos próprios parâmetros, o que poderia implicar em julgamentos precipitados, equivocados ou glorificações. A percepção dos condicionantes culturais é essencial, pois “sob essa perspectiva, as tarefas de tradutores e jornalistas têm uma base dinâmica: da autoconsciência cultural para o encontro com o Outro em sua diferença e de volta ao Próprio” (ZIPSER, 2002: 11)[8]. As variáveis presentes nos dois modelos tornam-se responsáveis pela dinâmica interativa entre produtor textual (jornalista/tradutor) e destinatário (leitor); uma relação nem sempre isenta de percalços, visto que a presença dessas variáveis exige monitoramento constante por parte do produtor textual com vistas a manter o nível satisfatório da comunicação TF e TT, ou FF e reportagem.
4. A Interface Ao propor esta interface (Fig. 2), partimos de uma noção ampliada de texto que se desloca para um ponto anterior àquele proposto pelas linhas mais clássicas de pesquisa em tradução voltada à área jornalística. Partimos não necessariamente de um TF (texto-fonte), mas de um FF (fato-fonte) ou fato-gerador que se constitui no próprio evento noticioso, ou seja, o fato-gerador da notícia. Essa noção ampliada de texto permite compreender o fazer tradutório como um ato inserido em contexto real de situação e cultura e, por extensão, como um produto jornalístico que reflete a integração de diferentes esferas de influência e atua, também, como formador de opinião. Tradicionalmente em meio jornalístico a tradução é voltada àquela “fiel à letra”, consensual, como transcodificação isenta, o que vem de encontro a preceitos básicos da área jornalística tais como objetividade, imparcialidade e neutralidade no relato da notícia. Portanto, do contexto de afinidades entre tradução e jornalismo (ZIPSER, 2002: 32), a ‘transcodificação isenta’ é para a tradução o que a ‘neutralidade’ representa para o jornalismo. Entretanto, considerar a possibilidade de que existam textos neutros e imparciais significa desconsiderar a linguagem como manifestação cultural, resultando na sua desvinculação como produto de um meio social e como processo formador de sentido. Lembramos o que diz Mayra Rodrigues Gomes (2000: 19 - grifo nosso), para quem antes de registrar e informar, “o jornalismo é ele próprio um fato de língua”, cujo papel ou função na instituição social é organizá-la discursivamente. Desta maneira e vivendo também do que acontece fora do seu eixo particular, a produção jornalística não está isenta de receber influências externas, especialmente culturais. Tal evento se torna ainda mais significativo pelo fato de que as matérias jornalísticas, bem como a tradução, não estãoimunes à sua condição espacial, temporal e à hierarquia existente nas redações, proporcionando ao jornalista diversas angulações e focos[9] ,para abordar o fato. Nesse contexto, partimos do pressuposto da existência de filtros culturais entre o fato ocorrido e aquele veiculado pela imprensa, em especial quando as notícias transitam em ambientes internacionais. Sempre há, nestes casos, um recorte no viés noticioso tendo em vista, principalmente, o leitor em prospecção, as características do veículo, critérios de valores-notícia[10] (FRANZON, 2004) e a própria situação de informação-em-cultura. Estes filtros, atuantes no processo de constituição de sentido dos textos nos conduzem a várias leituras possíveis de um mesmo fato ou de uma realidade maior. Segundo Zipser: “Tal processo nada mais é do que um correlato, no universo da imprensa, das leituras que se fazem de uma realidade, de um fato. Trata-se, enfim, de uma leitura e não da leitura desse mesmo fato”, (ZIPSER, 2002: 3 - grifo nosso).
5. A Tradução como Representação CulturalÉ nesse terceiro vértice que a interface tradução-jornalismo se concretiza. Os processos tradutório e jornalístico sofrem a influência de variáveis externas e internas à sua produção textual, gerando diferentes perspectivas de abordagem para um mesmo evento noticioso, sempre em relação de dependência com o contexto cultural para o qual é relatado. Justifica-se, nesse sentido, a pesquisa comparativa em ambiente internacional. Através dela as diferentes perspectivas de enfoque conferidas ao fato, a situação histórico-social em que a matéria jornalística foi produzida, o modo como o texto é organizado para chegar até o leitor-destinatário e o perfil jornalístico de cada país são mais claramente identificáveis. Nesse sentido, as diferentes leituras que fazemos de um mesmo evento constituem diferentes traduções para este fato e, por conseqüência, a tradução jornalística se coloca em termos culturais e não meramente como uma transcodificação lingüística. Por essa razão, as próprias escolhas, de como abordar o fato, já não podem ser consideradas ‘neutras’, conforme Zipser (2002: 3): Dessa forma, o produto final da reportagem estabelece um vínculo com os fatos, que será o resultado do gerenciamento de múltiplas variáveis, ditadas pelas esferas políticas, sociais, econômicas, pela condicionante da história, pela extensão da liberdade de imprensa, pelo teor de formação de seus agentes e, não menos importante, pelo perfil do público ao qual se destina. A percepção do envolvimento de parâmetros culturais durante o processo de transposição cultural ou ‘tradução de notícias’ em ambiente internacional estabelece um novo conceito para a tradução em interface com o jornalismo: a tradução como representação cultural, oposta à noção de “transcodificação isenta”, conforme propagam os manuais de redação exigindo textos objetivos e neutros. No contexto dessa lógica, a leitura que fazemos das notícias é, assim como a tradução, apenas uma das muitas que um mesmo fato pode receber de acordo com o contexto cultural para o qual se destina. A essas diferentes abordagens para o FF, chamamos deslocamento de enfoque. Nesse processo, o jornalista passa a ser visto como ‘tradutor do fato’, o que acaba por exigir do profissional uma percepção mais aguçada dos parâmetros das culturas envolvidos no relato noticioso, de modo a fazer com que o texto final - a reportagem impressa - funcione culturalmente para o seu público-leitor[11], conforme proposto por Nord e apontado por Esser. Lembramos que a literatura jornalística normalmente utiliza o termo traduzir referindo-se a uma escrita “que represente o fato tal como ele ocorre”, de modo a possibilitar a compreensão do maior número possível de leitores (POLCHLOPEK, 2005b). Esta mesma literatura, até o momento, não associa a idéia de traduzir à necessidade da adaptação cultural dos textos jornalísticos aos leitores dos países aos quais se destinam.
6. Marcas Culturais e o Deslocamento de Enfoque Para exemplificar os preceitos teóricos apresentados neste artigo, selecionamos exemplos extraídos de reportagens comparáveis das revistas Veja, TIME e Der Spiegel, representativas dos contextos brasileiro, americano e alemão, respectivamente. Assim sendo, no âmbito da revista Der Spiegel, pelo lado alemão, comparado à revista Veja pelo lado brasileiro, apresentamos um pequeno recorte da reportagem sobre a queda do muro de Berlim, em 1989 (Der Spiegel nº 46/1989, p.18). No primeiro parágrafo da referida reportagem, lemos: “Heiligabend und Sylvester fielen in Berlin in diesem Jahr auf den Abend des 9. November: Vor allem in Ost-Berlin lagen sich am späten Donnerstag abend einander fremde Menschen in den Armen, lachten und jubelten mit glücklichen Gesichtern. In Häusern und auf den Straßen knallten Sektkorken, am Nachthimmel gingen Leuchtraketen und Böller los. Nur Christbaum und Lametta fehten”. (p.18, Der Spiegel) [Neste ano, a festa de Natal e o Reveillon caíram em Berlim na noite de 9 de novembro: sobretudo em Berlim Oriental, a tardas horas de quinta-feira, desconhecidos se abraçavam, riam e comemoravam com rostos radiantes de felicidade. Nas casas e nas ruas espocavam rolhas de champanhe, no céu noturno corriam rojões e fogos de artifício. Faltavam apenas árvores de Natal e seus enfeites prateados[12]]. Se considerarmos que a reportagem estabelece em seu parágrafo inicial o envolvimento emocional do leitor com o acontecimento, percebemos que o tema é desenvolvido e fundamentado em detalhes que pressupõem um conhecimento da cultura alemã. Assim, já de início descreve-se a alegria do povo, mais especificamente, dos berlinenses orientais e para isso a reportagem recorre à comparação do evento da queda do muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989, às festas de Natal e São Silvestre, festas essas que representam um momento importante na cultura alemã. O simbolismo do pinheirinho enfeitado com Lametta[13] está presente no seio das famílias alemãs e esses valores são cultivados desde a mais terna infância na sociedade alemã. Dar início ao texto com essa referência significa aproximar a importância e o simbolismo do evento a algo já enraizado nas tradições do leitor alemão. Semelhante apelo emocional certamente não teria o mesmo efeito entre os leitores brasileiros. Primeiro, pela distância física do evento, que acontecia na Alemanha. Segundo, porque mesmo que o Natal e as festas de final de ano sejam importantes para o povo brasileiro, culturalmente falando, existem diferenças. Na Alemanha o clima de inverno faz com que as famílias se recolham, se aconcheguem em seus lares. Enquanto no Brasil sustentamos uma certa influência norte-americana em nossas festas de final de ano, na Alemanha as festas natalinas são de forte perfil familiar, de confraternização e religiosidade. São valores de referência dentro da cultura no que se refere à alegria em família, harmonia. Partindo-se desses parâmetros, o texto da revista brasileira, buscou outros recursos para apresentar o fato noticioso ao público brasileiro. A Veja inicia a reportagem com informações gerais sobre a situação política da Alemanha e ressalta que o evento aconteceu, ao contrário do que o mundo temia, “sem sangue nem exército, sem armas nem interferências externas, sem sofrimento” (p. 130). Enquanto a ancoragem do texto alemão se fundamenta nas festas natalinas, no texto da revista Veja nos deparamos com uma referência a “um enorme carnaval”. Aparentemente isentas, essas ancoragens são, na verdade, demonstrações do que definimos como traduções do fato, como representação cultural. O fato noticioso ainda é o mesmo, mas as abordagens, os enfoques conferidos a ele são adequados culturalmente aos seus respectivos leitores. Vejamos o trecho da reportagem da Veja referente à queda do muro de Berlim: A Europa dividida do pós-guerra acabou, o regime comunista da Alemanha Oriental implodiu, o seu símbolo mais tenebroso – o Muro de Berlim – começou a vir abaixo e o mundo inteiro presenciou uma mudança histórica numa única noite, de quinta para sexta-feira da semana passada. Tudo isso sem sangue nem exército, sem armas nem interferências externas, sem sofrimento. Ao contrário, a Europa criada no final da II Guerra Mundial e à qual o planeta todo se acostumou a ver, por força de um hábito consumado ao longo de cinqüenta anos, como um continente dividido, terminou com um enorme carnaval. (Veja nº 46/1989, p. 130). Já em relação à Veja e à revista americana TIME, os exemplos foram extraídos de reportagens sobre o “11 de setembro”, publicadas em edições especiais desses dois periódicos. Dentre as marcas culturais encontradas, as mais significativas envolvem a representatividade do World Trade Center em ambas as culturas, americana e brasileira. Os trechos destacados a seguir ilustram algumas dessas referências:
As escolhas para a representação das torres para os leitores americanos envolve um apelo mais emocional em (1), (2) e (3) enquanto que, para os leitores brasileiros, essa mesma imagem é desprovida de afetividade, conforme os exemplos (4) e (5) tendo em vista o simbolismo das torres para ambas as culturas. Os americanos tinham nas torres uma referência de segurança, de poder, a concretização de uma economia de sucesso e dos seus próprios valores enquanto sociedade. Portanto, associá-las a um herói do baseball (3) é o mesmo que imortalizá-las como ocorre com os jogadores que se tornam ídolos neste esporte. Por outro lado, em Veja, as torres aparecem da forma como os brasileiros as viam: símbolos do capitalismo e da superpotência que os Estados Unidos se tornaram. Destacamos os itens lexicais: arranha-céus, que pode ser associado ao horizonte de prédios da Avenida Paulista, visto como símbolo do centro financeiro no Brasil e, supremacia econômica, a qual traduz a imagem do capitalismo americano em nossa cultura. Outros dois trechos que merecem destaque nessas mesmas edições da TIME e da Veja, foram extraídos de outras duas reportagens sobre a vida do terrorista Osama bin Laden: (6) His al-Qaeda curriculum included lessons in sabotage, urban warfare and explosives. [TIME] Nestes, as marcas culturais são de natureza semântica. Estas marcas buscam traduzir a imagem do terrorista de forma semelhante nas duas culturas, ressaltando o histórico de atos criminais presentes na vida de bin Laden. Ao empregar o item lexical curriculum, a americana TIME ressalta o histórico de atrocidades cometidas por bin Laden ao longo de sua vida, bem como a cronologia destes crimes conforme se articula a reportagem. Já a revista brasileira, opta pela expressão folha corrida. De caráter bem mais popular esta expressão normalmente encontrada em jornais mais sensacionalistas permite ao leitor brasileiro associar a imagem do terrorista com a de bandidos perigosos e que possuem uma ficha criminal extensa. Assim procedendo, o jornalista-tradutor desenvolve uma estratégia de produção textual de fina adequação ao seu público-leitor e definida por nós como a representação cultural do fato noticioso (ZIPSER, 2002). Trata-se dos mesmos fatos – a queda do muro de Berlim, os atentados ao WTC e a realidade política no Brasil – sendo apresentados ao leitor-destinatário através de uma abordagem adequada à cultura deste leitor e buscando a sua aproximação com o texto. Temos, portanto, a tradução de um mesmo tema sob perspectivas diferentes e não somente em línguas diferentes.
7.Considerações FinaisA análise das marcas culturais revela a tentativa por parte do tradutor-jornalista, consciente ou não, de aproximar o fato de um leitor cultural ou geograficamente distante dele. Estas marcas, com a mesma naturalidade com que atravessam fronteiras definem também valores inerentes aos diversos contextos culturais e asseguram o processo da comunicação. Tal fato é o que legitima a tarefa do tradutor: o motivo da integração entre as diversas línguas (Polchlopek, 2005a, grifo nosso). Essas referências estão sempre presentes ainda que não facilmente visíveis e estabelecem a ponte entre o conhecimento prévio do destinatário final e o novo, adquirido com a leitura. Logo, se todo texto, traduzido ou não, tem uma função, esta só se completa quando o texto é, de fato, lido. Sobre isso afirma Nord[14] (2004): A função ou funcionalidade não é uma qualidade inerente aos textos. É o receptor do texto quem lhe atribui uma função no mesmo instante e na situação na qual o recebe. O produtor de um texto seja o autor ou o tradutor (...) precisa da cooperação do receptor que, por sua vez, se deixa guiar pelos indicadores funcionais que encontra tanto na situação comunicativa como no próprio texto. Essas escolhas e a própria seleção do que fará parte das reportagens, daquilo que será relatado e como, corroboram o que discutimos no início deste artigo, ou seja, que os princípios que regem o jornalismo sobrevivem à margem da ética dos seus profissionais, pois não atuam na prática em si. Para os pesquisadores jornalistas, tal afirmação pode causar um terremoto, visto que, são conceitos arraigados e transmitidos nos cursos de jornalismo como uma via de mão única, que não permite outros caminhos. De forma similar, para os pesquisadores voltados à tradução na sua acepção mais clássica - TF e TT - esse conceito pode assumir também contornos do que se chamaria “metáfora de tradução”, ou seja, a tradução jornalística não seria de fato uma tradução, apenas lembraria uma (POLCHLOPEK, 2005b). No entanto, isso não se verifica, conforme os exemplos que pontuamos e outros tantos que podem ser discutidos além dos limites deste artigo. Enquanto leitores diários de TJs temos a opção de entrar em contato com leituras diversas acerca dos mesmos fatos, sem nos darmos conta disto. Como conseqüência, sem a devida conscientização, somos levados a acreditar naquilo que lemos como a única leitura possível das notícias, quando não a é. Nesse sentido e, dentro do âmbito do jornalismo, a tradução cultural adquire visibilidade e materialidade com a interface tradução-jornalismo, sendo pertinente aos estudos jornalísticos e tradutórios, como campo de pesquisa. Acreditamos, nesse sentido, que o perfil de um pesquisador seja o de instigar pensamentos diferentes e estar aberto a novas possibilidades. Aqui chegamos ao que é representativo da nossa proposta: pensar jornalismo e tradução sob diferentes perspectivas, mas que se complementam e se enriquecem entre si. Referências BibliográficasAZENHA, João. (1999). Tradução, Técnica e Condicionantes Culturais: Primeiros Passos para um Estudo Integrado. São Paulo: Humanitas; FFLCH/USP. ESSER, Frank. (1998). Die Kräfte hinter den Schlagzeilen – Englischer und deutscher Journalismus im Vergleich. München/Freiburg: Verlag Karl Arber. FRANZON, Erica. (2004). Os valores-notícia em telejornais. Monografia apresentada ao Programa de Pós-graduação em Jornalismo e Mídia da Universidade Federal de Santa Catarina. GOMES, Mayra Rodrigues. (2000). Jornalismo e Ciências da Linguagem. São Paulo: Hacker Editores; Edusp. NORD. (2004). Comunicarse Funcionalmente En Dos Lenguas. In: Léxico Especializado y Comunicación Interlingüítica. Edited by FABER, Pamela; JIMÉNEZ, Catalina & WORJAK, BERD. Stica, Granada: Granada Lingüística. p. 285-296. POLCHLOPEK, Silvana. (2005a). A Tradução de Textos Jornalísticos – Marcas Culturais Aproximando Fronteiras. Comunicação apresentada na XIII Jornadas de Jovens Pesquisadores do Grupo Montevideo, Tucuman, Argentina. POLCHLOPEK.(2005b). A Interface Tradução-Jornalismo: Um Estudo de Condicionantes Culturais e Verbos Auxiliares Modais sobre Textos Comparáveis das Revistas Veja e TIME. Dissertação apresentada ao Curso de Pós- Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC. ZIPSER, Meta Elisabeth. (2002). Do fato a reportagem: as diferenças de enfoque e a tradução como representação cultural.Tese apresentada ao Depto. de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,USP. Textos Utilizados para Análise:
[1] Unter “Kultur” verstehe ich eine Gemeinschaft oder Gruppe, die sich durch gemeinsame Formen des Verhaltens und Handels von anderen Gemeischaften oder Gruppen unterscheidet. Kulturräume fallen daher nicht zwangsläufig mit geographischen. sprachlichen oder gar staatlichen Einheiten zusammen. [2] Muito embora o texto só realize a sua função quando da leitura efetiva do Receptor, neste artigo consideramos igualmente o ponto de vista do Emissor, ou seja, do produtor textual-jornalista atuando como tradutor. [3] Marcas culturais são referências da cultura tanto do Emissor quanto do Receptor presentes no texto. Estas referências culturais, ainda que não sejam pensadas de modo consciente pelo tradutor, fazem parte invariavelmente do processo tradutório não bastando, portanto, só o conhecimento do idioma, mas também o da cultura tanto da língua/cultura-fonte quanto da língua/cultura-alvo. [4] Las siguientes consideraciones se basan en un concepto funcional de la comunicación. Sies verdad que la traducción es una forma de comunicación intercultural, la traducción funcional procura producir textos que no sólo "funcionen" en la cultura meta, sino que también funcionen de la manera pretendida por el cliente que ha encargado la traducción. [5] A proposta de Frank Esser resulta ainda inédita no contexto brasileiro. Suas reflexões derivam de sua tese de doutoramento, ainda não traduzida para o português, tendo sido estudada somente por Zipser (2002). Segundo o próprio Esser, não existem fontes em língua inglesa para o seu trabalho. [6] (...), dass der Journalismus eines jeden Landes durch die allgemeinen gesellschaftlichen Rahmenbedingungen, historische und rechtiliche Grundlagen, ökonomische Zwänge sowie die profissionellen und ethischen Standards seiner Akteure geprägt wird. [7] Eine international vergleichende Studie birgt Gefahren. Als Feldforscher im fremden Land betrachtet man seinen Untersuchungsgegenstand durch die Brille des Ausländers und bewertet das Wahrgenommene nach den Maßstäben seines Heimatslandes. Das kann zu Mißverständnissen, vorschneller Kritik oder Glorifizierung führen. [8] Nominamos aqui “Outro” e “Próprio” em maiúsculas de modo a respeitar as suas identidades lingüísticas e culturais enquanto membros da atividade de comunicação, neste caso, leitor/produtor do TF e também do TT. [9] Foco: é o que o repórter centraliza na matéria, o assunto ou tema principal, por exemplo, violência. Se depois imaginarmos esse tema como sendo um prisma de cristal é possível chamarmos de ângulo cada um dos lados deste prisma, obtendo diferentes abordagens para o tema violência. Assim, o ângulo vem a ser a direção do olhar do repórter; da equipe de redação; de uma pauta, sobre o prisma-tema. (Medina, 1988). [10] Características constitutivas do fato para que se torne noticiável. Tais valores são determinados pelo público, pela redação, pelo veículo, pela cultura, pelo próprio jornalista. [11] Nesta relação, o leitor nem sempre é previsto durante a elaboração da notícia, mas teoricamente participa do processo, visto que o jornalista-tradutor tende a compartilhar da cultura do receptor. [12] Tradução de Zipser. [13] Lametta são fios prateados, longos e brilhantes, usados para ornamentar os galhos da árvore de Natal na cultura alemã. [14] La función o funcionalidad no es una cualidad inherente a los textos. Es el receptor de un texto quien le atribuye una función en el mismo instante y en la situación en la que lo recibe. El redactor de un texto, sea autor o traductor (...) necesita la cooperación del receptor, quien, a su vez, se deja guiar por los indicadores funcionales que encuentra tanto en la situación comunicativa como en el mismo texto. |
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